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Imaginis umbra est

Concerto Em Louvor da Água | Maio Lisboa 2019

Guitarra(s) e Voz(es): Júlio Guerreiro, João Aleixo

Imaginis umbra est (É o reflexo da tua imagem) Baseia-se na temática  ‘Em Louvor da Água’ e proposta como impulso de criação para guitarra solo, tendo-se posteriormente desdobrado para dois performers (cantor) e cujas funções se confundem, explorando-se não só as suas várias facetas como executantes multifuncionais (instrumento, voz, corpo, acção) mas também as características acústicas e arquitectónicas do espaço da Mãe D’Água das Amoreiras. Partindo da plataforma referida surge um encadeamento de vários elementos originários não só do que é referido como impulso de criação, mas também da história Eco e Narciso (Metamorfoses, Ovídio) nomeadamente o enredo, características das personagens e a sua funcionalidade subjectiva referente à vivência e paixões humanas sendo sob o efeito destas que o homem se transforma noutro ser, animal, planta ou outros, mas ainda referente aos sentidos, neste caso audição/som (Eco) e a visão/imagem (Narciso).

O resultado pretendido é a fórmula ambiciosa  ‘obra total’, não só pela interacção que surge com o espaço e suas características, mas também com o público e com a exploração até ao limite projectado no papel do(s) executante(s), isto é o guitarrista 1 transforma-se num executante multifuncional ao nível da execução tradicional do seu instrumento mas com a exploração das técnicas estendidas (mencionando-se os sons percussivos com uma gama escolhida pelo próprio de acordo com indicações prévias), da utilização da voz, com palavras/frases mas também com ‘sonoridades’ específicas estabelecidas (respiração, soluço, grito, e outras), do corpo, com a movimentação no quadrado central, ponte lateral e zona circundante entre o público, tendo a colaboração do cantor que funciona como seu prolongamento, um ‘duplo’, fundindo-se mutuamente, e que utiliza igualmente uma guitarra, a voz e o corpo.

Quanto à história, esta funciona também como elemento estrutural do discurso total, dividindo-o em várias secções intimamente relacionadas conjuntamente com a movimentação no espaço e as suas personagens (Eco e Narciso) são representadas pelos dois executantes mas sempre em intercâmbio, podendo ser analisadas como uma única, em que uma é a duplicação da outra, isto é, em termos auditivos, Eco é o exemplo ‘repetição’ do som, e Narciso, o reflexo/’repetição’ da imagem na água.

No que respeito ao texto são utilizadas frases traduzidas para a língua portuguesa, as sílabas das palavras em latim e ainda, com uma funcionalidade de complemento, a Cold Song da ópera King Arthur de Henry Purcell, mas neste caso sem a utilização de texto mas unicamente de uma selecção de material melódico/rítmico  transfigurado a vários níveis (melódico, rítmico) e utilizado por fragmentos ao longo do discurso. Funciona como choro constante e tímido que se desenvolve de forma constante e persistente transmitindo uma dor dupla constante das duas personagens por diferenciadas razões.

Eco é aquela que não sabe falar, que não se cala quando alguém lhe fala e que repete apenas os últimos sons que lhe chegam, sendo a figura mítica que esclarece a origem do fenómeno físico do eco, a continuada repetição de um som a longa distância. É a ninfa das montanhas, castigada por Juno que a privou da fala, sendo-lhe permitido apenas pronunciar a última sílaba das palavras. O castigo foi cruel. Apaixonada por Narciso, não conseguia declarar o seu amor, sendo por ele abandonada: Desprezada, oculta-se nas florestas e, envergonhada, cobre a face com a folhagem e, desde então, vive em solitários antros. As preocupações, que lhe tiram o sono, mirram-lhe o infeliz corpo,
a magreza enruga-lhe a pele, e todo o humor do corpo
se evola no ar. Apenas lhe restam a voz e os ossos,
E a voz mantém-se. Dizem que os ossos assumiram a forma de pedras. (Metamorfoses, Ovídio)

Narciso é o mito da beleza masculina, simbolizando a busca do impossível e adoração excessiva de si próprio. Foi predestinado a ser alguém que viveria até o momento em que se tentasse conhecer. Despertou o amor em deusas e mulheres mortais, e especialmente na ninfa Eco.  Foi também condenado, e adorar-se a si próprio e a possuir o objeto do seu amor. Ao refrescar-se numa fonte, após uma caçada e ao ver a sua beleza refletida nas águas, apaixonou-se pela sua própria imagem. Obcecado pelo seu reflexo não conseguia ‘fugir’ e na sua loucura e Com as lágrimas perturbou as águas e a imagem desvaneceu-se no lago. (Metamorfoses, Ovídio)

Como introdução de Imaginis umbra est é utilizada uma citação de António Lobo Antunes e que aqui surge como acto conclusivo – E o espelho é uma poça de água de chuva que não reflecte nada, nem rostos nem gestos, nada a não ser o peso trémulo de uma ausência (As Veias dos Búzios, Livro de Crónicas)

 

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